domingo, 24 de maio de 2026

24 de Maio: Dia do Povo Cigano — Resistência, Raízes e Contribuição

No dia 24 de maio, o Brasil e o mundo voltam o olhar para um povo que, ao longo de séculos, carrega consigo uma história feita de caminhos percorridos, muita coragem, resistência e uma cultura riquíssima: o povo cigano. Esta data não é apenas uma comemoração — é, antes de tudo, uma homenagem, um reconhecimento justo e necessário à presença, à luta e à importância desse povo que faz parte da nossa história e da nossa identidade coletiva.


Entre os seus grupos principais, distinguem‑se os Rom, os Calon e os Sintós, que, embora compartilhem origens antigas, raízes comuns e valores fundamentais, trazem cada qual a sua própria forma de viver, de expressar‑se e de preservar o que receberam dos antepassados. 

Os Rom, o mais numeroso e espalhado por todos os continentes, mantêm viva a sua língua, os seus costumes e uma forte organização comunitária que sempre serviu de abrigo e força. 

Os Calon, presentes especialmente na Península Ibérica e em toda a América Latina, construíram uma identidade singular, misturando a sua sabedoria ancestral com a vivência nas terras onde se instalaram, deixando marcas profundas na cultura, na fala e nas tradições dos povos com os quais conviveram. 

Já os Sintós, que habitam principalmente a Europa Central e Ocidental, conservam com rigor e dedicação os seus códigos, as suas artes, os seus rituais — mantendo‑se fiéis à sua essência, mesmo diante de tantas transformações ao longo do tempo. 

Não podemos falar desse povo sem lembrar as imensas dificuldades que enfrentaram e, em parte, ainda enfrentam. Durante gerações, foram alvo de preconceito, discriminação, exclusão e injustiças. 

Viveram proibidos de falar a sua própria língua, de praticar os seus rituais, de estudar, de trabalhar livremente ou de escolher onde queriam viver. Foram vistos com desconfiança, mal compreendidos e muitas vezes marginalizados — como se a sua forma única de ver o mundo fosse algo que devesse desaparecer. 

Mesmo diante de tanta adversidade, nunca se deixaram vencer: ao contrário, transformaram cada obstáculo em motivo para fortalecer ainda mais a sua identidade.

Hoje, ao homenageá‑los, destacamos com orgulho o trabalho constante e dedicado que realizam para manter, resgatar e preservar a sua cultura. Sabem muito bem que a sua herança não é algo do passado, guardado apenas na memória: é algo vivo, que se renova, que se ensina e se transmite de geração em geração. 

Resgatam histórias que corriam só de boca em boca, recuperam saberes artesanais, técnicas, músicas, danças, contos e formas de conviver que corriam risco de se perder. 

Mantêm os seus valores: o respeito profundo aos mais velhos, a solidariedade entre familiares e vizinhos, o amor à liberdade, a hospitalidade e a sabedoria que só se adquire vivendo e conhecendo o mundo. Preservam tudo isso não só para si mesmos, mas como uma dádiva que compartilham com toda a sociedade.

E é exatamente essa contribuição que torna a sua presença tão valiosa. As tradições ciganas enriquecem a nossa cultura coletiva, ampliam a nossa visão de mundo, ensinam‑nos a valorizar o que é autêntico e verdadeiro. A sua forma de viver, a sua arte, a sua visão sobre a vida e sobre as relações humanas são um patrimônio de todos nós — prova viva de que a diversidade não é motivo de divisão, mas sim uma das maiores riquezas que uma sociedade pode ter.

Neste 24 de maio, prestamos também homenagem especial às mulheres ciganas: elas são, sem dúvida, o coração e a alma dessa cultura. São elas que, na maioria das vezes, guardam e transmitem os saberes, que mantêm vivos os rituais, que fortalecem os laços familiares, que lideram, que ensinam e que, com muita força e sensibilidade, carregam consigo a missão de não deixar que nada se perca. 

Ao longo da história, foram elas que, em meio às maiores dificuldades, serviram de alicerce para que o povo cigano continuasse de pé, digno e orgulhoso da sua origem.

Hoje, o cenário já mudou muito: conquistaram direitos, o seu trabalho e a sua presença são cada vez mais reconhecidos, ocupam espaços na educação, na arte, na saúde, na política, em todas as áreas da vida social — exercendo também os seus deveres, como cidadãos plenos, que contribuem ativamente para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Mas sabemos que ainda há caminhos a percorrer para que o respeito seja total e definitivo.

Que esta data seja, portanto, mais do que uma homenagem: que seja um compromisso.
Compromisso de valorizar, respeitar e aprender com esse povo que, com tanta coragem, nos mostra que é possível evoluir, conviver e progredir — sem nunca deixar de ser quem se é.

Aos Rom, aos Calons e aos Sintós — a todos os homens, mulheres, jovens e crianças que formam esse povo tão querido e tão forte —, a nossa mais profunda gratidão, admiração e respeito.

Feliz Dia do Povo Cigano!

fotos/videos:




domingo, 26 de novembro de 2023

Os ciganos e o Holocausto — O Porajmos

Os ciganos e o Holocausto — O Porajmos


O que os próprios chamam de Porajmos, que significa “o que foi devorado”, ou Samudaripen, “o extermínio”, é o nome dado ao genocídio sofrido pelo povo cigano — Rom, Calons e Sintós — durante o regime nazista, entre 1933 e 1945.
Foi uma tragédia histórica que durante muito tempo permaneceu esquecida ou pouco reconhecida, apesar de ter atingido quase toda a sua população.

Por que foram perseguidos


Para o regime nazista, os ciganos eram considerados “raça inferior”, “estranhos” ou “indesejáveis”, da mesma forma que os judeus — chegando inclusive a ser incluídos nas Leis de Nuremberga, que os privaram de cidadania, direitos e liberdade, definindo‑os como inimigos do Estado. Essa perseguição não surgiu só naquele período: vinha de séculos de preconceito, discriminação e exclusão em toda a Europa.

Números e dimensão da tragédia

Antes da guerra, viviam cerca de 1 milhão a 1,5 milhão de ciganos na Europa.
Estima‑se que entre 200 000 e 500 000 tenham sido assassinados — cerca de 25 % de toda a sua população europeia; em certos países, como Áustria, Estónia e Chéquia, morreram até 80 % ou 90 % dos que lá viviam. Todos os grupos sofreram:
Rom, Calons e Sintós, sem 
distinção — homens, mulheres, idosos e crianças, sem exceção.

Como ocorreu a perseguição


Desde 1935: proibição de falar a sua língua, casar com quem quisessem, exercer os seus ofícios; prisões, esterilizações forçadas, trabalhos forçados. 
Deportações em massa para os campos de concentração e extermínio — Auschwitz‑Birkenau, Dachau, Buchenwald, Ravensbrück, entre outros. 
Em Auschwitz existia um setor exclusivo, chamado “acampamento cigano”: no dia 2 de agosto de 1944, todos os cerca de 4 300 que ali restavam — na maioria crianças, mulheres e idosos — foram mortos nas câmaras de gás. Por isso, essa data é hoje o Dia da Memória do Porajmos. Também foram mortos em fuzilamentos coletivos, nas estradas, nas aldeias, pelas tropas especiais que percorriam a Europa ocupada.

O silêncio e o reconhecimento


Ao contrário de outras vítimas, durante décadas quase nada se falou ou escreveu sobre isto: a história oficial ignorou‑os, não houve reparações, nem reconhecimento. Apenas em 1982, a Alemanha reconheceu oficialmente que se tratou de um genocídio planejado e sistemático — e só muito mais tarde outros países seguiram o exemplo. Para muitos sobreviventes, o sofrimento continuou depois da guerra: continuaram discriminados, sem direito a regressar às suas terras, sem apoio, como se a sua dor não existisse.

Ligação com o que celebramos no dia 24 de maio


Hoje, quando homenageamos o povo cigano, invocamos também essa memória: a sua incrível capacidade de resistir, manter e preservar a sua cultura, mesmo depois de terem tentado apagá‑los da história. Rom, Calons e Sintós, não só sobreviveram: mantiveram vivas as suas tradições, a sua fé — incluindo a devoção a Santa Sara e a São Zeferino Malla —, a sua língua, a sua arte, provando que nada consegue vencer a força da sua identidade.
Sofreram o pior que a humanidade foi capaz de fazer, mas continuam aqui — presentes, vivos, contribuindo e enriquecendo o mundo inteiro.

Os ciganos e a sua exterminação durante o Holocausto: frente à preservação cultural nos dias atuais

O Porajmos: o genocídio esquecido

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas classificaram os povos ciganos — roma, sinti, calé e outros grupos — como "raça inferior" e "indesejáveis", traçando um plano sistemático de eliminação que ficou conhecido entre eles como Porajmos, ou seja, "a devoração". Estima-se que entre 200 mil e 500 mil pessoas tenham sido assassinadas na Europa, cerca de 25% de toda a população cigana da época.


  • Medidas de perseguição: desde 1933, foram proibidos de frequentar espaços públicos, levados a campos de concentração, submetidos a esterilização forçada, trabalhos escravos, experimentos médicos e morte em câmaras de gás. A ordem oficial de deportação geral foi dada em dezembro de 1942, levando milhares diretamente a Auschwitz-Birkenau.

    Reconhecimento tardio:
  • Só em 1982 a Alemanha reconheceu oficialmente que se tratou de genocídio; por décadas, o assunto foi ignorado nos livros de história e negado nas políticas de reparação. O dia 2 de agosto é hoje lembrado mundialmente como Dia de Memória do Porajmos. 
  • Esse processo visava não só eliminar vidas, mas destruir completamente sua identidade, língua, costumes e modo de vida, pois a cultura cigana foi vista como um obstáculo ao projeto de "pureza racial".


Preservação cultural hoje: resistência e reconhecimento


A sobrevivência do povo cigano é, em si mesma, um ato de preservação. Hoje, lutam para recuperar, manter e difundir sua cultura, ainda sob forte preconceito e discriminação (chamada de anticiganismo), uma das formas de racismo mais persistentes na Europa e no Brasil.


Principais ações e avanços atuais:
  • Reconhecimento oficial:
No Brasil, foi instituído em 2024 o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos, que prevê valorização da cultura, ensino da sua história, respeito à sua forma de viver e combate ao preconceito.
Países da União Europeia e organismos internacionais (ONU, Conselho da Europa) definem estratégias para proteger o patrimônio imaterial cigano e incluí-lo nos currículos escolares.
  • Preservação da memória:
Criação de museus, memoriais e centros de documentação; inclusão do Porajmos nos estudos sobre o Holocausto.
Manutenção da transmissão oral: histórias, músicas, danças, artesanato, crenças e leis comunitárias continuam sendo passadas de geração em geração, como forma de resistência
  • Valorização da língua e expressões artísticas:
O idioma romani é ensinado em escolas e cursos; produções literárias, musicais e artísticas ciganas ganham espaço público.
Festivais, encontros e feiras culturais reforçam a identidade e quebram estereótipos. 
  • Direito ao modo de vida:
Luta pelo reconhecimento da itinerância como parte fundamental da cultura, não como "vadiagem"; direito a territórios, moradia e organização comunitária própria.
    Desafios que ainda existem:
    1. Preconceito enraizado e representações negativas na mídia.
    2. Pouca presença nos livros didáticos e desconhecimento geral da sua história.
    3. Risco de perda de tradições pela pressão à assimilação e exclusão social.
    4. Ainda hoje, são um dos grupos mais discriminados e marginalizados do mundo.

O Porajmos foi uma tentativa brutal de apagar o povo cigano e toda a sua cultura. 

Hoje, a preservação cultural não é só manter costumes: é reconhecer que existem, que resistiram e que sua história faz parte da história humana

Lembrar o genocídio e apoiar suas lutas é fundamental para que o passado não se repita e para que sua identidade seja respeitada como patrimônio de todos nós.



Fotos/videos: