quarta-feira, 2 de abril de 2014

Como as ciganas aprendem a jogar as cartas?



O jogo de “cartas ciganas” chamado comumente pelos ciganos rons de lilá romai, mas sem denominação pelos calons do RN, é uma das artes de adivinhações exclusivas das ciganas e pouco desconhecida pelas jurins (não ciganas), pois a cigana não lê como o descrito no roteiro que vem na caixa, elas leem as cartas e interpretam com a sua intuição. 

Assim como a cultura Cigana, todo o ensinamento das ciganas menores é totalmente ágrafo (não escrito), passada dos mais velhos para os mais novos, homens ensinam a homens e mulheres ensinam as mulheres, é assim que aprendemos.


Sendo a dever das ciganas mais velhas a tarefa de ensinar as ciganas mais novas, mesmo antes dos 10 anos, as ciganinhas já começam a aprender como se jogam. afinal, são as ciganas que trazem o sustento da família.

Antigamente, a lilá romai (cartas ciganas) eram jogadas com o baralho original aquele que encontrávamos com mais facilidade nas mercearias as chamadas bodegas.
Mas hoje em dia aos poucos foram substituídos por outros tipos de baralho, os chamados tarots, cartas egípcias, cartas ciganas, cartas dos anjos, etc. o que não quer dizer que sejam diferentes, pois na sua interpretação basicamente possuem o mesmo entendimento.

O mais famoso de todos os baralhos ciganos é o conhecido baralho de Lenormand,
Vamos conhecer um pouco sobre o baralho Lennormand.
(pesquisa feita virtualmente, publicada abaixo e com ela a sua fonte aqui creditada.)

Mademoiselle Marie-Anne-Adelaïde LeNormand 



Lenormand durante sua prisão em Bruxelas

Mademoiselle Marie-Anne-Adelaïde LeNormand ou simplesmente Mlle. Lenormand foi uma famosa cartomante francesa que também exercia, além de outras artes, a quiromancia. Muito famosa na antiguidade e inclusive na realeza, 

Lenormand nasceu em Alençon, na Normandia, segundo ela no dia 27 de maio de 1772, embora os documentos originais indiquem 16 de setembro de 1768. Perdeu seu pai quando tinha apenas um ano de idade e, a seguir, sua mãe, aos 5 anos. Foi enviada a um convento, de onde surgem os primeiros relatos de seus dons de clarividência. 

Estabeleceu residência, em Paris, no turbulento período que se seguiu à Revolução Francesa e, nessa cidade, consolidou sua fama de adivinha, de leitora da sorte. 

Em 1807, Mlle. Lenormand leu as mãos de Napoleão e descobriu sua intenção de se divorciar de Josefina. Para afastá-la de cena, ele a mandou à prisão, em 11 de dezembro de 1809, onde a vidente permaneceu durante doze dias, enquanto ele providenciava o divórcio. Esse fato foi o verdadeiro lançamento de sua carreira e ela se tornou a cartomante mais popular de sua época. Ativa e desembaraçada, escreveu perto de trinta livros, que continuam inéditos até hoje. 
As informações sobre elas são por vezes contraditórias. É tida como boa estimuladora de outras cartomantes, mais ou menos famosas. Por outro lado, alguns de seus detratores, entre os quais se encontram jornalistas contemporâneos, sustentam que sua lista de clientes eminentes era fruto da fantasia da "Sibila de Alençon" e que suas pretensas profecias eram sempre alardeadas após os fatos consumados... 

Em 25 de junho de 1843, aos 74 anos de idade, foi enterrada em Paris, no cemitério Père Lachaise. Alguns críticos disseram que seu maior dom era a habilidade de amealhar riquezas. De fato, por ocasião de sua morte, deixou uma grande soma de dinheiro. 



O primeiro Baralho de Lenormand



O baralho mais antigo com o nome de Mlle. Lenormand é o “La Sybille des Salons”. Foi inicialmente publicado em 1828 e compreendia o mesmo número de cartas do baralho comum: com 52 cartas, cada uma delas mostrando um personagem diferente.

Trata-se de um jogo voltado à cartomancia, que retrata um significado compreensível para as cartas: "conversa”, "viagem", "casamento". Segue um estilo que lembra as modernas histórias em quadrinho.

O baralho “A Sibila” foi mais tarde redesenhado pelo célebre ilustrador Grandville, Gérard Jean Ignace Isidore, e publicado com mesmo título, por volta de 1840, pela gráfica Grimaud.

As 52 cartas desse jogo correspondem ao baralho comum, com 13 cartas para cada naipe. Como acontece com o “Pequeno Lenormand”, estão incluídas apenas três figuras – Valete, Rainha e Rei – sem o Cavaleiro do Tarô Clássico.


O Baralho de Lenormand hoje em dia


As cartas do "Pequeno Lenormand" são numeradas de 1 a 36, numa ordem própria 
que não segue nem o critério de naipes nem o da numeração habitual das cartas de jogar

Em nome da Mademoiselle Lenormand foi impresso um outro jogo com 36 cartas, por volta de 1840, à cargo da casa impressora Grimaud. Ficou conhecido como o Pequeno Lenormand e somente décadas depois passou a ser reproduzido com a designação de "Baralho Cigano".

Esse jogo, na verdade, consiste de uma utilização parcial de 9 cartas de cada um dos quatro naipes do baralho comum, num total de 36 cartas. Ela utiliza apenas o Ás e as cartas numeradas de 6 a 10 e, no caso das figuras da corte, deixa o Cavaleiro de lado, como acontece, em alguns casos, com as cartas de jogar utilizadas na França nos últimos três séculos.

A explicação para isso é a existência de jogos populares como o "Piquet" que utilizava apenas 32 cartas do baralho comum, excluindo as cartas do 2 ao 6 de cada naipe.

Só agora, no início do século 21, tornou-se mais conhecido um baralho que mostra de modo claro que as 36 ilustrações que Lenormand adotou no seu baralho são cópias do jogo de lazer editado por Johann Kaspar Hechtel (1771-1799), jovem empresário alemão. Uma apresentação dessas informações e de seus desdobramentos foi preparada, em português, por Alexsander Lepletier: O jogo de lazer que virou oráculo.

Como já acontecia com o baralho de Etteila, outro famoso cartomante francês, anterior a Mlle. Lenormand, foram adicionadas gravuras às cartas numeradas. Trata-se de um recurso que, para a cartomancia, facilita a atribuição de significados práticos às cartas. Tal medida, se por um lado dá maior proximidade ao leitor, por outro, delimita e reduz drasticamente sua amplitude simbólica que pode ser atribuída a cada carta.

A popularidade do baralho Lenormand, estimulou incontáveis cópias e imitações por toda Europa e, até hoje, é redesenhado. Algumas variantes anunciadas como "Tarô Cigano" são facilmente encontradas no Brasil.

fontes de pesquisas: 

Fonte do texto aqui divulgado sobre Lenormand - extraído em 02/04/2014, ás 22:32hs. 
http://www.clubedotaro.com.br/site/h23_19_lenormand.asp
www.giordanoberti.it/html/articoli_lenormand.htm
http://cartomancie.exoteric.fr/le-petit-lenormand/rubrique268.html http://www.dotpattern.com/gamecard/tarot/index.html

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Santos Ciganos

SANTA SARA A KALÍ


Em 26 de setembro de 1965 (naquela mesma ocasião em que fomos comparados a Jesus), foi COROADA no Vaticano, por aquele mesmo vigário de Cristo (Paulo VI), uma Nossa Senhora de pele escura, descalça, com um vestido vermelho de barra dourada, tendo uma blusa azul escuro sobre outra azul celeste, cabelos pretos com um lenço vermelho sobre eles, segurando uma criança no colo. Decorridos 37 anos, no dia 8 de outubro de 2002, o papa João Paulo II, LAUREOU a mesma Nossa Senhora, proclamando-a como “RAINHA DOS CIGANOS”. Inclusive, instituiu a seguinte oração:
“Ó Mãe, que conheces os sofrimentos e as esperanças da Igreja e do mundo, assiste os teus filhos nas provações quotidianas que a vida reserva a cada um e faz com que, graças ao esforço de todos, as trevas não prevaleçam sobre a luz. A Ti, aurora da salvação, confiamos o nosso caminho no novo milênio para que, sob Tua guia, todos os homens descubram Cristo, luz do mundo e único Salvador, que reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.” 
IMPORTANTE:

- Confeccionada em estilo “barroco”, cada imagem é consagrada antes da pintura e depois, antes da colocação do diclô.
- O MANTO: Em vermelho e amarelo-ouro para os ciganos Calon; azul e branco para os Kalderasch.
- FLORES: Ao redor dos pés e do manto, pois conta a história que, “ao desembarcar na praia, onde Sara pisava nasciam flores”.

Como nós ciganos, Santa Sara Kalí tem suas origens envoltas nas brumas da lenda e do mito. O epíteto "Kali" significa "negra” (em língua Kaló), porque sua tez é escura. Seu culto se liga ao culto das Madonas Negras.
O fato é que Sara é uma “santa” de culto local, de existência tolerada, mas não oficialmente reconhecida pela Igreja Católica, (embora inúmeras fontes afirmem que sua canonização consta de 1712). Em Camargue, ela é representada por uma imagem de madeira, de cor negra, vestida com ricos brocados e guardada no interior da cripta da igreja de Nossa Senhora do Mar, principal templo católico de Saintes-Maries-de-la-Mer. No Brasil, vários grupos ciganos a invocam, também com o nome de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora da Penha.

Ao contrário de Zeferino Giménez Malla, Sara Kalí ainda não foi oficialmente canonizada. Mas para os ciganos, ela intercede junto a Jesus Cristo em nome daqueles que desejam receber ajuda divina em todos os aspectos da vida. Além de trazer saúde e prosperidade é cultuada principalmente pelas mulheres, por ajudá-las diante da dificuldade de engravidar. Desde muito, quando não conseguiam ter filhos faziam promessas a ela e, se concebessem, iriam a sua cripta. Lá faziam uma noite de vigília e depositavam em seus pés - como agradecimento, um lenço de cabeça dicrô (sempre o “mais bonito” que encontrassem). São milhares os lenços deixados lá como prova dos seus milagres. As pessoas fazem todo tipo de pedido para Santa Sara, por sua fama de atender todos os que depositam verdadeira fé nela. Mas perseguirá os opressores, os racistas, aqueles que vão contra seus protegidos primeiros (os ciganos). Santa Sara é a santa dos desesperados, dos ofendidos, dos desamparados e das causas “impossíveis”.

o templo mais antigo e mais cultuado, localiza-se em Saintes-Maries-De-La-Mer.
Através de uma longa noite de vigília e orações, os ciganos e devotos espalhados pelo mundo inteiro, com candeias de velas azuis, flores e vestes coloridas, além de muita música e muita dança, reverenciam a PADROEIRA dos ciganos nos dias 24 e 25 de maio. Este simbolismo religioso, com orações, danças e músicas representa, em nossas tradições, o processo de purificação e renovação da natureza e o eterno “retorno dos tempos”.

A ORAÇÃO EM LÍNGUA ROMANI
TU KE SAN PERVO ICANA ROMLI ANELUMIA
TU KE BILADIATO LE GAJIE ANASSOGODI GUINDIÇAS
TU KE DARADIATO LE GAJIE, TAI CHUDIATO ANEMARIA,
THIE MERES BI PAIESCO TAI BOCOTAR
JANES SO SI E DAR, E BOCK, THAI O DUCK ANO ILÔ
THIENÁ MEKES MURRE DUSMAIA THIE AÇAL
MANDAR THAI THIE BILAVELMA
THIE AVES MURRI DUKATA ANGRAL O DHIEL
THIE DHIESMA BAR, SASTIMÔS, THAI THIE
BLAGOIS MURRÔ TRAIO.
THIE DIEL O DHIEL.

Tradução:
Tu que és a única santa cigana do mundo
Tu que sofrestes todas as formas de humilhação e preconceitos
Tu que fostes amedrontada e jogada ao mar,
para que morresses de sede e de fome
Tu sabes o que é o medo, a fome e a dor no coração.
Não permitas que meus inimigos zombem de mim ou me maltratem
Que tu sejas minha advogada perante o deus.
Que me concedas sorte, saúde, e que abençoe a minha vida.
Amém.
Protegidos

Santa Sara Kali protege as mulheres quem estão com dificuldades para engravidar. Muitas ciganas que não conseguiam ter filhos faziam promessas a ela, no sentido de que se engravidassem. Se isso de fato ocorresse, as gestantes iriam à cripta da Santa, em Saintes Maries de La Mer no sul da França, fariam uma noite de vigília e depositariam em seus pés como oferenda um diklô (um lenço cigano), o mais bonito que encontrassem. Neste local existem milhares de lenços, como prova de que muitas ciganas receberam esta graça.

Lendas

Muitos livros contam que teria ela acompanhado as três Marias (Jacobé irmã de Maria e mãe de Jesus, Salomé mãe dos apóstolos Tiago Maior e João e Madalena), que juntos com José de Arimatéia, fugiram da Palestina numa pequena barca, transportando o “Santo Graal” (o cálice sagrado) que seria levado para um mosteiro da antiga Bretanha. Dizem ainda, que a barca teria perdido a direção durante o trajeto e atracado no porto de Camargue, às margens do Mediterrâneo, que por sua vez ficou conhecido como "Saintes-Maries-De-La-Mer", transformando-se desde então num local de grande concentração dos ciganos. Santa Sara passou a ser comemorada e reverenciada todos os anos nos dias 24 e 25 de maio, por meio de uma longa noite de vigília e oração, na foz do rio Petit Rhône, na província de Languedoc, sul da França, onde milhares de ciganos do mundo inteiro passaram a se reunirem todos os anos. A imagem de Santa Sara fica na cripta da igreja de Saint Michel, onde estariam depositados seus ossos.

Muitas lendas publicadas por não-ciganos acabaram confundindo a história de Santa Sara Kalí. Muitas versões contadas vêm atrapalhando seu processo de santificação. Para alguns ela foi uma “antiga rainha das terras de Camargue”; outros a vêem como uma “egípcia” ou “negra africana” levada de uma para outra margem do Mediterrâneo; há quem a considere uma “sacerdotisa do antigo culto oriental ao deus Mitra; outros ainda acham Sara a “personificação de uma divindade feminina dos celtas” (uma espécie de Grande Mãe ligada a terra)...

Uma das explicações para estas histórias é que em Camargue existiram várias colônias de antigas civilizações, como a egípcia, a cretense, a fenícia e a grega. Por isso, muitos poetas e menestréis contaram a história de Sara, de acordo com o que ouviram de seu povo, e assim, o mito em torno dessa poderosa santa foi difundido pelo mundo.

Há muitas lendas sobre Santa. Algumas falam que ela era serva e parteira de Maria e que foi ela que trouxe Jesus ao mundo. Outra lenda diz que ela era serva de Maria Madalena.
A lenda mais comum conta que Maria Madalena, Maria Jacobina, Maria Salomé, José de Arimatéia e Trofino, junto com Sara, uma serva, foram atirados ao mar, numa barca sem remos e sem provisões.Desesperadas, as três Marias puseram-se a orar e a chorar. Neste momento Sara retira o diklô (lenço) da cabeça, chama por Jesus Cristo e promete que se todos se salvassem ela seria escrava de Jesus e jamais andaria com a cabeça descoberta em sinal de respeito. Milagrosamente, a barca sem rumo e à mercê de todas as intempéries, atravessou o oceano e aportou com todos salvos em Saintes-Maries-de-La-Mer. Sara cumpriu a promessa até o final dos seus dias.
Hoje, as pessoas fazem todo tipo de pedido para Santa Sara, pois ela possui a fama de atender todos os que tem verdadeira fé. Santa Sara é a santa dos desesperados, dos ofendidos e dos desamparados.
Abaixo destaco duas Orações para fazer a Santa Sara Kali no dia dela ou em qualquer momento que necessitar de sua ajuda.

Primeira oração de Santa Sara Kali

Santa Sara, minha protetora, cubra-me com seu manto celestial. Afaste as negatividades que porventura estejam querendo me atingir. Santa Sara, protetora dos ciganos, sempre que estivermos nas estradas do mundo, proteja-nos e ilumine nossas caminhadas. Santa Sara, pela força das águas, pela força da Mãe-Natureza, esteja sempre ao nosso lado com seus mistérios. Nós, filhos dos ventos, das estrelas, da Lua cheia e do Pai, só pedimos a sua proteção contra os inimigos. Santa Sara, ilumine nossas vidas com seu poder celestial, para que tenhamos um presente e um futuro tão brilhantes, como são os brilhos dos cristais. Santa Sara, ajude os necessitados; dê luz para os que vivem na escuridão, saúde para os que estão enfermos, arrependimento para os culpados e paz para os intranquilos. Santa Sara, que o seu raio de paz, de saúde e de amor possa entrar em cada lar, neste momento. Santa Sara, dê esperança de dias melhores para essa humanidade tão sofrida. Santa Sara milagrosa, protetora do povo cigano, abençoe a todos nós, que somos filhos do mesmo Deus.
Segunda oração de Santa Sara Kali 
Farol do meu caminho! Facho de Luz! Paz! Manto Protetor! Suave conforto. Amor! Hino de Alegria! Abertura dos meus caminhos! Harmonia! Livra-me dos cortes. Afasta-me das perdas. Dai-me a sorte! Faz da minha vida um hino de alegria, e aos seus pés me coloco, minha Sara, minha Virgem Cigana. Toma-me como oferenda e me faz de flor profana o mais puro lírio que orna e traz bons presságios à Tenda. Salve! Salve! Salve!




São Ceferino Giménez Malla



Em 4 de maio de 1998, na Praça de São Pedro, o papa João Paulo II fez do espanhol Calon, CEFERINO GIMÉNEZ MALLA, provavelmente nascido em 26 de agosto de 1861, em Benavent de Segriá (Lérida-Catalunha), o primeiro SANTO cigano do mundo, num processo diocesano iniciado em Barbastro, a 27 de Novembro de 1993. Comparando Ceferino com Jesus, o pontífice citou Mateus 9,35: “Ele andava por todas as cidades e aldeias”.

Milhares de ciganos, dos mais diferentes países participaram da missa de beatificação de “São Zeferino”. Com suas músicas, cores e alegria, literalmente os Rom tomaram conta da Praça de São Pedro, na cidade do Vaticano, para homenagear São Zeferino e pedir as suas bênçãos. No Vaticano há um quadro pintado do santo-cigano, onde lemos: “Quadro que retrata a grande devoção à Eucaristia e ao Rosário do Beato Ceferino Giménez Malla, um verdadeiro cigano, cristão e mártir, pleno do amor de Cristo”.

Esta foi à profecia do juiz espanhol que decretou a inocência do cigano Ceferino, preso por suposto roubo de cavalos: “El Pelé não é um ladrão. Ele é São Zeferino Gimenez Malla, o patrono dos ciganos”.

Comerciante de cavalos, nascido na Catalunha (Espanha) em 1861, são muitas as maravilhas que se contam de “El Pelé”. Religioso a toda prova, catequista embora analfabeto, como bom cigano amante da natureza e das crianças, costuma bater sempre à porta dos pobres da região onde morava para dividir com eles mantimentos, bondade e solidariedade. A casa de Ceferino sempre esteve aberta para quem buscasse o que comer, um abrigo, ou um gesto de misericórdia. Casado aos 18 anos com uma kalin (cigana) de nome Teresa Jiménez Castro, não tiveram filhos, mas adotaram uma menina cigana de nome “Maruja”, que o acompanhou até o final de sua vida. Fica viúvo no dia 4 de dezembro de 1922. Quando se estabeleceu em Barbastro (Huesca-Aragona), soube, com a prudência de o cigano ganhar a estima também dos não-ciganos, passando a ser chamado pelos concidadãos de “presidente dos ciganos”, “advogado dos pobres” e “pacificador”. Entre seu povo, Ceferino vivia segundo a lei cigana: com força, mas na justiça. Sua sobrinha sempre dizia: “Tudo o que fazia tio Pelé, fazia-o com amor; espalhava amor em toda parte! Diante das dificuldades, sempre resignado, costuma dizer: “Deus o quis. Ele bem sabe o que faz. Que Deus seja Louvado.”

Em 1936, foi preso aos 75 anos de idade, durante a Guerra Civil Espanhola, onde, na zona sob o Governo Republicano, 6.783 padres, frades e freiras, além de 13 bispos e muitos simples cristãos foram assassinados, num sábado do dia 25 de julho, ao tentar interceder por um jovem sacerdote que estava sendo maltratado por milicianos. Ceferino foi preso ao exclamar: “Maria Virgem! Tantos homens contra um e até inocente!”
Depois de 15 dias no cárcere do convento requisitado das “irmãs Clarissas Capuchas”, recebe a visita de um amigo anárquico e influente, que a pedido de familiares, quis ajudá-lo. Encontra-o tranqüilo e orando, quando lê diz: “... Pelé, não te mostres mais a rezar tanto. Esconde esse terço e eu te libertarei...”

O cigano agradeceu sem lhe prestar atenção...

Nas primeiras horas do dia 9 de agosto daquele ano, Ceferino, atado a outros 12 condenados (inclusive o bispo Florentino), foi levado num caminhão para o cemitério da cidade. O condutor contou depois: “Durante toda a viagem, o cigano não deixava de gritar: “Que viva o Cristo rei!

Foi fuzilado (junto com os outros 12), com um terço nas mãos. Quem o matou lhe tirou as calças e os sapatos. Nu, seu corpo foi lançado numa fossa comum e jamais encontrado.

Nota: Barbastro e arredores é em proporção, a diocese mais rica de mártires da Espanha (82%). Durante a Guerra Civil foram mortas centenas de pessoas, além de: 1 bispo, 114 padres (dos 140 presentes na diocese), 51 jovens missionários, 18 monges, 8 frades professores, centenas de cristãos leigos (entre eles 18 da Ação Católica e 4 mulheres).

Padre Jorge Rocha Pierozan, atual vice-presidente da “Pastoral dos Nômades do Brasil”, que esteve presente naquele dia 4 de maio de 1998 no Vaticano, escreveu na revista “Sem Fronteiras”: “Beato Ceferino do Cavalo Branco, rogai por nós! Todos os anos, no dia 4 de maio, vamos celebrar com os ciganos a festa do beato Ceferino, padroeiro de sua raça. Enquanto isso, vamos rezar para que nosso mártir seja logo canonizado e que surjam outros (as) beatos (as) e santos (as) no meio dos grupos ciganos do mundo inteiro”.

Com aprovação eclesiástica do “Comitê Internacional para a Causa de Canonização - Piazza Missori, 4 – Milano - Itália”


ORAÇÃO DE SÃO CEFERINO:

“Deus Pai, grande e bondoso, com a luz e a força do Teu Espírito, uniste à paixão de Jesus o cigano Ceferino, primeiro mártir de seu povo. Nós Te agradecemos por terdes assim honrado todos os nômades do mundo, que tanto amas. Faze brotar entre sua gente -e na Igreja- missionários santos e ajuda-nos a imitar o exemplo deste verdadeiro homem de fé: repleto de amor por Ti e bom samaritano para com o próximo. Sustentados -como ele- pela Eucaristia e pela oração à Maria nos tornamos cristãos preparados para trilhar o caminho da cruz, na esperança de compartilhar eternamente a Tua glória. Amém!”



quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A culinária cigana

  


A culinária cigana é rica e diversificada, muito embora pouco descrita. Durante séculos, o regime marcadamente animal de nossa alimentação, incrementou muitas ideias corrente sobre nosso povo. Relacionava-se o consumo de alimentos de origem animal com uma “prodigiosa força física”, embora nos concedesse um valor moral negativo: aqueles que consumiam predominantemente este tipo de comida, (como também os gaúchos) estavam associados pelos higienistas à maldade, à perversidade, ao gosto pela pilhagem e por assassinatos e à pouca inteligência. No entanto, a história ressalva, que a base da dieta dos ciganos em viagem não diferia muito da dos tropeiros, composta de: carne seca, feijão, angu ou farinha de milho ou mandioca, arroz, eventualmente aguardente, ou melaço como sobremesa.

No século XIX, com o crescente avanço da pecuária, por exemplo, em Minas Gerais, possibilitou aos ciganos, incorporar o leite e os queijos a sua alimentação, em virtude das negociações que mantiam com fazendeiros e sitiantes.
Entre os ciganos nômades, tanto a mesa quanto os talheres inexistiam, às vezes faltando até pratos. Eram improvisadas gamelas e outros utensílios, mas comiam com as mãos. Em alguns grupos as facas eram mais comuns, pois podiam ser usadas tanto para cortar quanto para introduzir o alimento na boca. Os alimentos eram cozinhados nos acampamentos, fixando-se três paus unidos pelas pontas para formarem uma tripeça, na qual se alocava o caldeirão ou tacho.

Variando de grupo para grupo segundo suas linhagens, regiões de assentamentos, influências locais etc., apresento alguns dos principais alimentos predominantes e os pratos da culinária cigana, porém sem divulgar o modo de preparo.


Pratos ciganos de origem grega. indiana, africana, espanhola, e brasileira.
Abaixo listados estaremos disponibilizando algumas comidas tradicionais muito utilizadas nas slavas (festas ciganas)

Cozidos:
  • Manouche: feijões vermelhos grandes, pedaços de carne e de ossos de pernil de porco, alhos-poró em pedaços, salsão com as folhas em pedaços, alhos comuns inteiros, cenouras e batatas cortadas em pedaços grandes, repolho cortado em 6 partes, cenouras, cebola cortada em duas partes, sal e pimenta-do-reino (moída na hora) a gosto; arroz branco que deve ser incorporado na última etapa do cozimento.
  • Goulash: cozido de arroz, batata, pedaços de carne bovina e páprica ardida.
  • Paprikach: costela defumada (bovina ou suína) e bacon ao molho vermelho de tomate e pimentão com batatas pequenas, cozidas na casca e páprica doce.
  • Sarmá: arroz com lentilha, carne seca desfiada e nozes.
  • Sarmali: pedaços de carne macia, de boi, pedaços de carne de porco (carne das costelas ou lombo), picar com facão e misturar ao cary, pimenta-do-reino, sal, salsa, cebolinha, colher de sopa de banha de torresmo. Adiciona-se folhas de repolho previamente cozidas sem amolecê-las, formando embrulhos quadrados.
  • Sarmy-Salmava: charutos ou rolinhos feitos em folha de repolho recheados com lombo ou carne bovina moída, azeitonas, bacon e molho dourado e/ou em folha de uva com recheio de bacalhau.
  • Cabén le maslo sar grane: milho de canjica (branco e amarelo) com carne seca, lingüiça e bacon.
  • Roletes: carne bovina ou frango com pedaços de cebola, pimentão (verde e amarelo) e tomate.
  • Kraknie: frango com cerveja preta.
  • Bucho de balichô recheado: 1 bucho de porco, água, limão e bicarbonato, farofa de miúdos de porco, sal e pimentas a gosto, gordura de porco para fritar.


Assados e frituras

Carnes de boi, de porco, de carneiro, de cabrito, aves e peixes. Antigamente, grelhados de forno assados hoje em panelas, eram assados no braseiro, em espetos de madeira aromática. Já a carne de carneiro deve ser raspada com as costas da faca, de véspera, sendo esfregada com hortelã verde, só removido no dia seguinte com vinho branco meio seco com sal.
  • Bakró: pernil de carneiro.
  • Cabrito frito: com arroz e brócolis (lentilha ou nozes).
  • Balo (pernil de leitoa): 1 leitoa de aproximadamente 6 quilos limpa, sal, alho, pimentas malagueta e do reino, óleo de soja. Assar, preferencialmente em forno de lenha.
  • Balichô na gordura: 1 lombo, sal, alho, pimentas malaguetas e do reino a gosto, salsa, cebolinha e coentro.
  • Sharch: costeletas de lombo de porco em pedaços, com pedaços grandes de carne de boi macia, metades de toucinho de fumeiro, pedaços carnudos de frangos, metades de codornas ou borrachos, cebolas inteiras de conserva.
  • Torresmo Calon: 5 quilos de toucinho com pele, sal, alho, pimenta do reino, 6 colheres (sopa) de álcool.

Peixes e crustáceos

  • Os alimentos do mar devem ser marinados com vinho branco ácido, grão de coentro socados e cary (ocuri dos indianos).
  • Peruá ou cação: frito com fubá ou farinha de rosca, leite de coco, arroz (empapado) salsa, coentro, cebolinha, limão, molho inglês.
  • Camarão ou lagostim seco: deve ser preparado em tacho de cobre bem limpo. Antigamente aquecia-se o tacho em fogueira. Ingredientes: sal grosso, folhas de louro verdes e secas. Deve ser mexido com colher de pau até desaparecer a espuma. Depois se retira e espalha-se para secar ao sol. Deve ser servido na folha de repolho...
  • Bacalhau calon (ou espanhol): ½ quilo de bacalhau demolhado, 4 pimentões verdes, ½ quilo de tomate, 3 alhos picados, 2 colheres de chá de açúcar, farinha de trigo, sal a gosto e pimenta malagueta a gosto.
  • Ensopado de caranguejo (ou siri): 2 “cordas” (preferencialmente de caranguejo), sal grosso, molho inglês, limão e queijo ralado.
Massas:
  • Malay: pão de milho.
  • Manrô-Kolako: pão redondo de farinha de trigo.
  • Mamalyga: polenta, linguiça mista e bacon.
  • Naut: grão de bico, linguiça, bacon, salsa, cebolinha, coentro e farinha.
  • Papuchá: pirão de milho.
  • Pão da Baba (ou de Santa Sara): 100 gramas de fermento biológico, 1 litro de leite morno (quase quente), 1 quilo de farinha de trigo, 150 gramas de margarina, sal, açúcar. Misturar entre as mãos até “borbulhar”. bater a massa por 3 vezes até cansar! Tampar e aguardar 30 minutos.
  • Macarrão com Berinjela: 1 cebola, 3 dentes de alho (azeite), 2 berinjelas, 1 colher de sopa de sal, 1 colher de sopa de açúcar, pimenta do reino, massa de tomate, carne cortada em tiras, macarrão rolinho (misturado a massa).

Queijos e saladas:

Brynza: queijo de Cabra (cru ou frito) preparado com orégano.
Armianca: salada de alface e tomate (em rodelas) com champignon; queijo de cabra, cenoura, beterraba em pedaços e berinjela frita (em tiras). Enfeitar com uvas-passa, raminhos de hortelã e pétalas de flores.

Bebidas:
  • Chivuisa: destilado à base de trigo (espécie de aguardente).
  • Sangria calon: vinho tinto, frutas (pedaços de abacaxi, maçã, laranja, uva etc.), água mineral e conhaque.
  • Sifrite francês: ponche de frutas com champanhe, vinho e/ou refrigerante. Enfeitar com pétalas de rosa.
  • Sifrite calon (ou Raulina): maracujá, aguardente, leite condensado, pau de canela, cravo da Índia, hortelã e açúcar. 
  • Tchaio-Kavi: chá feito com erva mate e pedaços das seguintes frutas: maçã (felicidade); uva fresca (prosperidade); uva passa ou ameixa (progresso); morango (amor); damasco (sensualidade); pêssego (equilíbrio pessoal) e limão (energia positiva e purificação da alma). Fazer o chá em água fervente e deixar amornar. Colocar as frutas maceradas, misturar bem, coar e beber.
  • Tai Ximbire Rimili: chá preto ou mate, aguardente, canela, cravo e hortelã.
  • Gingia: bebida típica dos Calon da Ilha da Madeira é uma bebida licorosa e muito saborosa. Em tributo ao meu “tetravô” João Gonçalves Zarco, vou ensinar o preparo: 1 k de gingia, 1 k de açúcar, 1 litro de aguardente e canela em casca. Lavar bem os frutos (que devem ser perfeitos) enxugá-las, cortar os pés ao meio no sentido do comprimento, sem os tirar; pô-las num recipiente de vidro de boca larga; despejar o açúcar por cima, a canela e a aguardente, até cobri-las... Deixar macerar por 6 semanas.

 Tortas e doces:

  • Civiaco tradicional: um queijo Minas, 500 gramas de passas sem caroço, 12 ovos. Misturar tudo em 1 litro de óleo de soja, com 150 gramas de margarina. Adicionar 1 k de farinha de trigo, 1 ovo, sal, açúcar, água (morna, quase quente), 3 colheres rasas de “Pó Royal”. Amassar bastante... Depois de 1 hora, cortar e abrir.
  • Libanitza: 500 gramas de farinha, 500 de “Maisena” 3 ovos, 250 gramas de margarina, leite, meio-queijo Minas grande, 4 litros de leite “C”, 4 ovos, 200 gramas de queijo ralado, 2 colheres de margarina, 1 xícara de chá de “Pó Royal”. Bater no liquidificador... Pré-aquecer o forno por 15 minutos... Levar ao forno por mais ou menos 1 hora. Polvilhar queijo ralado.
  • Cartuechas: banana da terra frita na manteiga, chocolate ralado, queijo de cabra e açúcar.
  • Varenyky: pastel cozido (podendo ser doce) recheado com uva, ou salgado (recheado com batata ou queijo de cabra).
  • Guipén: Doce de ameixa preta e leite condensado.

ATENÇÃO:

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Datas importantes: nascimento, casamento e morte

     

Embora existindo atitudes diferenciadas entre os vários grupos, um fato é comum: nossa vida é mercada por três acontecimentos fundamentais e não como no calendário de 365 dias dos civilizados. Com algumas variações de grupo para grupo, estes acontecimentos são: o NASCIMENTO, o CASAMENTO, e a MORTE. Falarei em separado de cada um, desde já advertindo mais uma vez, que as diferenças também são significativas entre nômades, seminômades e sedentários, e que resumirei os três temas, pois cada um justificaria um ensaio à parte.

NASCIMENTO

Nós entendemos que cada criança que nasce traz para o mundo novos elementos do Universo e uma mensagem de paz para a humanidade. Também é sinal de continuidade e reforço do grupo. Por isso, a mulher grávida recebe um tratamento especial. O nascimento é motivo para uma festa com duração de até 5 dias, principalmente o do primeiro filho, pois representa a consolidação e a descendência de uma nova família nuclear. O pai ganha prestígio, autoridade, responsabilidade e privilégios, iguais aos de qualquer outro adulto casado, mesmo que seja muito velho.

O ciganinho ou ciganinha geralmente possuirá TRÊS nomes: 

PRIMEIRO: É o nome SECRETO, soprado pela mãe no ouvido do bebê na primeira mamada, chamada “dgdbao-kalibó” (leite negro) pelos ciganos Calon. Ele só será conhecido pela mãe. Servirá para preservá-lo das tentações dos demônios, dos entes e “duendes”, pois os maus espíritos para azucrinar as pessoas chamam pelo nome e a pessoa olha. A atenção e o olhar destroem as defesas. Assim os ciganos não olham e nem dão atenção, porque ignoram o seu primeiro nome. Este nome só lhe será revelado por ocasião do casamento. Só mãe e filho poderão sabê-lo; 

SEGUNDO: É o de BATISMO e será do conhecimento de todos. A criança poderá ser batizada em várias religiões, (pois cremos que o batizado trás sorte) apesar do RITUAL DOS NOMES ser o verdadeiro batismo cigano. Com o batismo começa a ser forjada a identidade cigana; nosso primeiro mistério e a relação diferenciada com o mundo dos não-ciganos. O ritual de batismo é muito especial, correspondendo ao ingresso da criança na sociedade: as avós e/ou tias tratam de BANHAR a criança num tacho ou bacia de cobre com uma infusão de ervas (alecrim, manjericão etc), tendo no fundo muitas jóias de ouro e moedas, para que seu futuro seja próspero, além de representar a riqueza da vida e a importância do bebê. Ele será apresentado à lua para que o tome como “madrinha”. Para o nosso povo, qualquer criança é um presente de Deus e, por isso, deve ser purificada assim que vem ao mundo. Nosso povo tem um inexcedível amor às crianças. Um casal cigano tem em média de 4 a 8 filhos; 

TERCEIRO: Confina-se a ser usado nos PAPÉIS LEGAIS e ao convívio com os não-ciganos. Em muitos grupos é comum a identificação através de um apelido. Para a mulher cigana, a maior infelicidade de sua vida é ser DY CHUCÔ (ventre seco), ou seja, estéril. Nascendo o primeiro filho, os esposos são considerados família autônoma e célula viva do grupo, especialmente o homem, que ganha prestígio, autoridade, responsabilidade e privilégios. Com a maternidade a mulher ocupa seu novo e verdadeiro espaço no grupo. A criança que nasce é também filho da família, do clã e da etnia. 
Nota: Antigamente a criança só cortava os cabelos aos oito anos. Quem cortava era o padrinho.

CASAMENTO

O cigano só é considerado um ROM de verdade, quando se CASA, tem FILHOS e constitui FAMÍLIA. A cigana (BURNIN, BUSNÉ) só será considerada realmente CASADA depois do nascimento do primeiro filho. 

O casamento é tão importante que é considerado um ponto de honra. Numa festa de casamento a alegria só é interrompida por um momento de tensão: o “rontamento”. Após a relação sexual, a noiva entrega às mulheres mais velhas da família do noivo, uma espécie de anágua ou o lençol manchado de sangue. Só então a tensão se desfaz e a festa continua. Não sendo virgem poderá ser repudiada pelo marido e pelo grupo. Muitas pessoas me perguntam: “E se não sangrar?” Nesse caso, uma “Phuri Dai” (cigana idosa, matriarca) será chamada para examinar a noiva. Ela dirá se a moça era virgem ou não. Como ela sabe, é um dos segredos do nosso povo.

A virgindade, considerada hoje um “tabu superado entre adolescentes não ciganas”, é mantida entre nossas moças por entenderem assim: “Só darei meu corpo a quem eu der a minha alma também”. Antes da crítica à atitude firme de nossas moças, ela deve ser vista com louvor diante da época tão corrompida de hoje, de uma sociedade tão permissiva e relaxa.

Ciganos casam-se cedo (hoje entre 14 e 16 anos) para preservar sua cultura e valores. Mas não são raros os casamentos de ciganas aos 10 anos de idade. Incentivamos o casamento entre os membros de nossa etnia, pelo fato da filosofia de vida entre um cigano e um não-cigano ser tão violentamente diferente, que seria difícil a união dar certo. 

Ao contrário do que muitos pensam a paixão e a sensualidade nem sempre estão presentes nos casamentos. O romantismo dá lugar a critérios mais objetivos, como por exemplo, a capacidade da futura noiva para ganhar dinheiro, ou a habilidade no noivo para os negócios. 

A mãe da noiva tem direito de opinar sobre a conveniência daquela união. Hoje os filhos também podem não aceitar (mas dificilmente o fazem), primeiro porque respeitam os mais velhos, segundo por acharem que o casamento é o maior presente que os pais poderão lhes dar, após ter-lhes dado a vida. 

O celibato é mal visto e, adultério, poligamia e homossexualismo são intolerados! Nem guerras, nem crises ou revoluções merecem mais atenção do que o casamento, aquilo que realmente altera a estrutura da família cigana - base de nossa própria organização social -. 

Por ser considerado tão importante, o casamento é um ritual complexo, que envolve uma preparação especial, podendo o noivado durar de alguns dias a meses. 

É verdade que existe o DOTE: ele é combinado entre os pais, podendo a negociação ser mediada por um barô (líder, chefe) e pago como compensação pela perda da filha, que passa a pertencer a família do marido, só voltando se enviuvar. Quanto maior for a beleza e as virtudes de uma cigana, maior será seu dote. 

Atualmente, o “dote” é simbólico, e os presentes dos noivos (geralmente dinheiro) são postos num tacho de cobre ou numa urna de barro (kufia). 

Em alguns clãs, após o casamento os noivos atiram uma taça, pote ou um prato no chão, supondo que o amor só acabará “quando os cacos se juntarem”. 

O casamento cigano ainda é um dos poucos indissolúveis que existem (são raras as separações) e as mulheres são extremamente fiéis e dedicadas aos respectivos maridos. Como já disse o adultério e a bigamia não são tolerados.

O abiel romanô (festa de casamento) dura em média 3 dias e começa com a armação de duas tendas, cada qual com uma bandeira em cima. O primeiro dia é dedicado à preparação das comidas; no segundo acontece uma reunião na tenda da noiva e a distribuição de flores para os noivos, começando pelos pais e estendendo-se aos demais convidados; no terceiro dia, acompanhado pelo pai e empunhando uma bandeira vermelha (que simboliza a honra), o noivo vai à tenda da noiva, onde entrará “forçando” a passagem. Lá dentro é convidado a beber com os pais dela, começando um diálogo preestabelecido. 

A certa altura do diálogo, a jovem será erguida acima da mesa e entregue a ele. As mãos de ambos serão unidas por um pano vermelho, ao mesmo tempo em que um ancião faz votos de felicidade e lhes entrega um pedaço de PÃO (simbolizando o corpo de Cristo) com SAL (para afastar os maus espíritos). 

Geralmente é um kaku ou uma phuri daí quem oficializa o casamento, muito embora os ciganos venham também optando pelo casamento católico. No final da festa a noiva retorna à casa dos pais, onde haverá outra festa mais íntima: ela receberá o DICRÔ (lenço de cabeça, símbolo da mulher cigana casada), significando que ela tornou-se uma BORI ou BORIA (nora, uma filha para a família do marido). Só então se mudará para a casa do marido e o casamento será consumado. 

A cerimônia é mercada pela fartura de comida, bebida, dança, música e alegria. O casamento objetiva a prole, de forma que a esterilidade é considerada uma maldição! 

NOTAS:

A cada dia ocorrem menos casamentos por prometimento. Mas se uma cigana foge com um homem que não pertence a comunidade, cigano ou não, ainda corre o risco de ser punida. Fugir tornou-se um recurso para evitar casamentos indesejados. A cigana fugitiva, será procurada por 2 dias e se encontrada, poderá ter seus cabelos raspados ou ser até morta. Quarenta e oito horas após a fuga poderão retornar e justificar-se perante seu povo. Terá de ter mantido a virgindade. Por uma dessas “fugas”, recentemente em Campinas (São Paulo), os pais de uma cigana tiveram que “indenizar” os pais do noivo pretendente a bagatela de 100 mil reais;

As datas dos casamentos são estabelecidas pelas mães e madrinhas que elegem, sempre, o período fértil, já que a procriação é idéia fixa nas famílias ciganas;

Em muitos grupos, a gestante, objeto diuturno de atenções, desvelos e projeções é preservada até de ver e de ouvir fatos desagradáveis (aleijões, notícias de morte, máscaras e fotografias feias, etc), pois acreditamos que influenciariam negativamente na gestação; 

Ela deve ficar cada vez mais bonita, gorda, viçosa, alegre, movimentada, feliz, dado que os ciganos têm como certo que a gestante partilha o seu corpo e sua alma para completar o corpo e a alma da futura criança;

Embora a Kris Romaí não participe do compromisso de casamento, mas reconhece-o como ato perfeito, caso exista uma separação entre os cônjuges, determinará quem fica com os filhos, e também a partilha de bens, que o marido separa e a esposa escolhe com as respectivas famílias. 

MORTE
Nosso povo não se deixa abater por lágrimas e tristezas, pois a ALEGRIA é nosso mandamento maior. Não encaramos a morte como os gadjôs. A morte é para nós um tema sagrado. No além, pátria eterna dos mortos, habitam aqueles ciganos que estão investidos de todo poder, e a eles é confiado o destino da comunidade. Os mortos são a ponte entre Deus e os homens; devem ser respeitados e cultuados. 

Apesar desta visão, na morte e no luto é que vemos mais vibrante o amor cigano pelos seus. Todos choram, gritam, lamentam, fazem discurso e elogios ao falecido, exaltando suas qualidades. Acendemos velas e contratamos um enterro digno. 

O corpo é velado por dois dias, quando então chamamos o “religioso” para encomendá-lo. Depois se queima seus pertences. Antigamente queimava-se até seu vurdon (carroça) e abatia-se seu cavalo. Se o morto é o marido, a mulher se descabela e dá gritos inenarráveis, parecendo o fim do mundo! Guardará o luto em definitivo, nunca mais tirando o dikrô da cabeça. 

Nos funerais pedimos pouco pelo descanso da alma; os ritos de enterro têm por finalidade apaziguar o defunto. Para nós, o pior é ser mal enterrado. Por este motivo, nos cemitérios, as sepulturas dos ciganos são as mais bonitas e as mais ornamentadas.

Dependendo do grupo, no terceiro ou nono dia acontece os rituais da POLMANA: uma reunião de família em torno de uma grande mesa, na qual três turmas de convidados se revezam. Na cabeceira da mesa senta-se alguém representando o falecido (em outros grupos a cadeira ficará vazia), vestido com a roupa que ele mais gostava, sendo referenciado por todos e servindo-se em primeiro lugar. Depois os homens são os primeiros a tomarem assento. 

À luz de 41 velas rezamos por seu espírito e comemos os pratos preferidos dele, num gesto que objetiva lhe dar “força” para a nova caminhada. O ritual de polmana é uma espécie de “missa” em que se pede perdão e misericórdia a Deus em nome do falecido. Após o almoço, juntamos os restos de comida e os depositamos sobre uma toalha aberta, na margem de um rio ou junto a uma cachoeira. 

Ato contínuo, uma cigana lança nas águas um barquinho com três pãezinhos ou rosquinhas de farinha de trigo, onde no meio terá uma vela acesa. Esta oferenda representa o sopro e a benção de Deus. Acreditamos que assim, o morto saciado de fome e de sede, se desprenda dos bens terrenos. O barquinho levará sua alma através das águas e a vela fará luz, afugentando os espíritos das trevas. 

Repetimos o ritual 40 dias depois, período em que acreditamos que ele ainda poderá está andando pelo mundo até perceber que morreu. Os mortos são dignamente respeitados e, em respeito a eles, daí em diante todos evitam pronunciar seu nome, principalmente à noite. 

Quando acontece de se falar sobre o morto, dizemos – aqui em Romani -: Thie Avel Hertô (Que Deus o salve e o guie). Alguns grupos repetem este ritual no sexto mês, no primeiro ano e, depois nos dias de finados. Somos reencarnacionistas e acreditamos que, “quem nasce cigano em uma vida será assim por todas as outras sucessivas”.

Celebramos também o aniversário de morte, porém no dia 1º de novembro, fazendo a festa de “Todos os Santos”, constituindo-se uma ocasião para uma reunião dos familiares.
Para ir para o céu, um cigano não deve ter blasfemado muito o nome de Deus e não deve ter matado ninguém.

Notas:

A POLMANA costuma ser descrita por nove entre dez ciganólogos como se fosse comum a todos os ciganos, quando na realidade se trata apenas de características culturais Kalderash, embora todos os outros grupos ciganos possuam ritos de “passagem”.

Quando se trata da morte de uma pessoa jovem, uma moça virgem ou de uma criança, soltamos também uma pomba branca no ritual da polmana, simbolizando a pureza;

As mulheres Calon, por ocasião do falecimento do marido, cortam o cabelo e vestem-se de luto. Muito raramente a viúva se casará outra vez. O tio materno assumirá e responderá pela família.

A cultura Kalderash, praticamente a única conhecida do grande público não-cigano é apenas uma das inúmeras sub-culturas ciganas hoje existentes em todo o mundo, cada uma das quais com características próprias, resultantes de histórias diferenciadas de convivência, quase nunca pacífica, com as mais diversas sociedades e culturas.

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O que significa a música para os ciganos


Dizem que a música é  a combinação harmoniosa e expressiva dos sons.
Para os ciganos, a Música é como o som dos ventos, é o cheiro do mato quando caminhamos nas estradas, é o toque do violão, é o deitar na grama quando precisamos descansar, alguns ainda dizem que ver os carros desaparecerem na imensidão da "rodagem."
Tudo aquilo que é produzido pelo cigano envolve sentimento. Envolvem os cinco sentidos. o cigano só faz aquilo que manda  a sua intuição, a sua alma, a vontade de Deus.
É inexplicável ver, ouvir, sentir, como o dom da música foi dado a um povo que permeia entre o analfabetismo e a inteligência, de forma que grande parte desse povo nunca foi a escola. muitos mal assinam o próprio nome e se orgulham disso.
O povo cigano, parece ter "raízes flutuantes", pois as carregam sua cultura em todos os lugares em que vão, sem ao menos ter bagagem.
Não importa a que grupo pertença o cigano, se é rom, calon, ou sintó. nem precisa ter ido a universidades, estes possuem a universidade da vida em seu sangue, em seu saber.
Muitos artistas conhecidos do meu cigano, ganham a vida tocando sua música, cantando ou dançando em praças, festas, teatros, em geral locais públicos, que tenham muita gente, pois daí vem o seu sustento.

atualmente os ciganos mais rotineiramente se apresentam nestes locais, alguns até em programas de televisão conhecidos, em emissoras campeãs de audiência. sempre propagando a cultura cigana através do seu trabalho.
Os ciganos do grupo rom possui inúmeros artistas em suas mais variadas tipificações musicais. um dos exempls é o chamado "violino de ouro" o cigano roraranô Mio vacite e o seu grupo encanto cigano, outro exemplo seria o cigano "rom lovari Ruiter Durdevitch e seu grupo leshae" entre outros.
Os ciganos do grupo calon possuem também suas preciosidades artísticas, que com os mesmos dons musicais magníficos nos agraciam com um música de excelente qualidade. A dupla Yago e Santiago arrasam no violão com uma voz que mais parecem passarinhos ao pé de nossa janela ao amanhecer do dia.

A música é um dom de Deus dado ao cigano como forma a afastar suas tristezas trazendo alegria aos seus ouvintes, encantando-nos de forma a convidarmos a celebrar a vida, o nascimento e a morte.

Em face disso é comum para os ciganos cantar e beber "o morto" durante ou até acompanhando o velório do ente querido ao "sagrado" (cemitério).

Infelizmente, isso é muitas vezes repudiado pelos não ciganos por falta de conhecimento. que pensam que os ciganos com essa atitude não se importam com o falecido.
Mas na verdade não é isso que acontece.

Os ciganos são tão sentimentais e emotivos que a música expressa o sofrimento através do seu som, e não com palavras ou gestos. a perda do ente querido é algo que não se pode ou consegue mensurar, tamanha é a perda.

è essa uma das razões pelas quais os ciganos bebem, cantam, e tocam instrumentos enquanto caminham acompanhando o seu ente querido pela ultima vez até sua morada final.

Acredita-se que como uma atitude de se despedir desse amigo de longas datas, que muitas vezes foram nascidos e criados juntos, tocar cantar e beber é para os ciganos um último gesto de amor, respeito e fraternidade para com o ente querido.

A sociedade pouco sabe sobre os ciganos, mas a verdade é que essas pessoas em muito contribuem com sua cultura, através do seu trabalho em praças, ruas, bares etc. muitas vezes são constrangidos, como se o músico não tivesse uma profissão.

Essa atitude é tida como dicriminação cultural, e é punível conforme a lei expressa.


Fontes de pesquisas:

Site oficial da OMB - http://www.ombmg.org.br/
Lei 3.857/60 - http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/LEIS/L3857.htm
Código de ética dos músicos -